domingo, 3 de junho de 2018

As Antigas Duivelsbier de Halle - Por Doug Merlo

Se você perguntar para um apreciador de cervejas belgas o que era/é uma Duivelsbier, ele provavelmente daria alguma resposta do tipo: 

Claro, Duvel! E quem não conhece? São aquelas cervejas douradas com nomes diabólicos? Cerveja de cor dourada e fortes”.

Duvel é talvez uma das mais bem sucedidas cervejas belgas existentes. As antigas Duivelsbier não tem nada a ver com as cervejas modernas com referimentos diabólicos no rotulo.

Prefeitura de Halle - Bélgica
Halle é uma cidade ao sudoeste de Bruxelas na região de produção do Lambic. A língua oficial é o flamengo e é uma das maiores cidades da região (população de aproximadamente 38.000 pessoas). Os caçadores de cerveja, assim como eu, podem estar familiarizados com Halle, pois o jeito mais fácil de ir de Bruxelas a Beersel de trem para visitar produtores de Lambic icônicos como 3 Fonteinen e Oud Beersel deve-se fazer uma troca de trens em Halle. Antigamente eram comuns em Halle produtores e bistrôs onde serviam Lambic, infelizmente desaparecidos nos dias atuais juntamente com as Duivelbiers. Curiosamente, Vander Linden (extinto produtor Lambic em Halle) produziu uma Duivelsbier até 2001.

Mas então, o que é uma Duivelsbier?

Produzida na cidade de Halle por Pêtre Freres entre os anos 1883 até 1952, quando a cervejaria encerrou as atividades assim como muitas outras produtoras de Lambic da época. Brasserie Vander Linden, também da cidade de Halle, comprou a marca de Pêtre Freres e produziu a sua Duivelsbier até fechar em 2001.

É uma cerveja escura e forte, feita a partir das técnicas produtivas de fermentação espontânea (turbid mash) com 50-55% de trigo não maltado e malte de cevada (claros e escuros), fermentada e maturada por cerca de 2 anos em barris de madeira e servida com açúcar mascavo ou candi sugar.

A Duivelsbier, tanto no estilo histórico quanto nas representações modernas, é uma cerveja âmbar ou marrom com cerca de 7-8% ABV (embora versões recentes como a Vander Linden tinham apenas 6% ABV). A cor das históricas Duivelsbier era descrita como sendo semelhante a um conhaque.

De acordo com um artigo do início dos anos 1900 do jornal “Le Petit Journal du Brasseur”, é uma cerveja que surgiu perto do final do século XVII início do século XVIII. Conforme o jornal da época relata: 

Os jesuítas estavam fermentando e um dia eles ficaram sem fermento para a cerveja que tinham acabado de fazer, então eles colocaram o mosto em seus barris sem adicionar fermento, planejando misturá-lo com uma próxima produção. Mas começou a fermentar por conta própria antes de ser usada, então eles deixaram nos barris. Um ano depois eles pegaram uma amostra e descobriram que tinham uma cerveja vinosa que, quando adoçada, era bastante agradável, e assim a cerveja nasceu.”

O nome Duivelsbier veio logo depois disso. A história/folclore conta que alguns moradores de Bruxelas chegaram e, não sendo acostumados a cervejas essas cervejas alcoólicas de fermentação espontânea, bebiam demais. No caminho de volta para casa, quando foram parados pelo prefeito de Halle, eles culparam a cerveja, dizendo: "O diabo está nessa cerveja, não pode ser de outra maneira!" Como diz a história, o nome pegou e, de qualquer forma, essa cerveja escura e forte de fermentação espontânea tornou-se muito apreciada em Halle.

Duivelsbier Brasserie Van Der Linde (1998)
Era uma cerveja de corpo macio, carbonatada e fácil de beber. De cor clara lembrando um conhaque. O perfil de sabor é descrito como sendo entre Lambic e uma Oud Bruin ou Flanders Red Ale. É claro que levando em consideração que estamos falando sobre cervejas fabricadas por volta de 1900, então não podemos realmente comparar com exemplos modernos, isso sónos dá uma idéia do caráter de cor/malte. Geralmente servida com candy sugar ou açúcar mascavo no copo ou diretamente na jarra deixa a cerveja mais parecida com um Faro do que um Lambic sem corte.

O tipo de acidez das Duivelsbiers eram geralmente de tipo iguais as das Lambics, embora fosse um pouco menos intenso, especialmente para o ácido acético. Os níveis de ácido láctico das Duivelsbier eram cerca de 85% da concentração dos Lambics contemporâneos.

Na minha opinião as Duivelsbier são um bom exemplo de como a produção de Lambics mudou no último século. 100 anos atrás, existiam muitos produtores e mais “tipos” de Lambic do que o que nos dias atuais. Com isso temos essa mistura muito especial e regional chamado de Duivelsbier, e eu não ficaria surpreso em saber que haviam mais derivados de Lambic em outros lugares na Bélgica que ainda não conhecemos. O Lambic era geralmente fornecido para misturar com outras cervejas de alta fermentação para produzir diferentes tipos de produtos. Como todos sabem nos dias atuais o Lambic esta gozando de ótima saude produtiva e comercial com uma ampla gama no uso de frutas e barris específicos para complexidade de sabores. Então, realmente um renasceu assim como outro desapareceu.

Duivelsbier - Brouwerij Boon
Hoje existe um rótulo sobrevivente do extinto produtor de Lambic de Halle, a Duivelsbier de Vander Linden que operou até 2001. Em 2003 Brouwerij Boon comprou a falida marca e começou a produzir a cerveja, embora pareça mais uma Strong Dark Ale do que uma histórica Duivelsbier eu acho importante que alguém esteja mantendo o nome vivo, e tenho certeza de que as pessoas de Halle estão felizes em manter respirando um estilo nascido na cidade.

Existe alguma cerveja produzida nos tempos de hoje parecida com as antigas Duivelsbier? Não exatamente (que eu saiba), mas existem produtos parecidos em termos de características sensoriais. Eu acho que podemos ter chegado bem perto com o Straffe Winter da 3 Fonteinen, ela era uma cerveja de fermentação espontânea mais forte (8%) fabricada com maltes mais escuros, trigo e candi sugar com características semelhantes de um Faro. Essas semelhanças parecem atingir os principais pontos das antigas Duivelsbier. 

A Dominicus da produtora de Lambic Girardin também parece-se com um Faro de cor âmbar a 6% ABV, a mesma força que o Duivelsbier de Vander Linden.

Com o atual estado eufórico dos Lambics e seu crescimento, talvez possamos ver em um futuro breve o renascimento saudável e majestoso de um dos derivados de Lambic mais bebidos aos arredores de Bruxelas, as Duivelsbier.

Por Doug Merlo
Biersommelier Doemens Diplom
Italian Beer Taster Diplom
BJCP Certified
Mixologist

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Kerstbierfestival: O festival belga das cervejas de Natal - Por Doug Merlo

A vida é rica de surpresas e quando
essas surpresas encontram o mundo da cerveja, ficam ainda mais
especiais. É em uma
pequena cidade chamada Essen, em uma região chamada Flanders no norte da Bélgica, que
todos os anos acontece o Kerstbierfestival, o mais charmoso e
importante festival de cervejas natalícias belgas.
Festival que acontece todos os anos no
mês de Dezembro, é organizado pela O.B.E.R. (Objectieve
Bierproevers van de Essen Regio), um grupo regional de degustadores
de cervejas que promovem a cultura cervejeira belga através de
eventos, locais e cervejarias.
Além do charme da cidade e do
festival, podemos encontrar mais de 200 cervejas natalinas de
diferentes produtores belgas. A entrada no festival é gratuita (e
você ganha um pequeno livro com o elenco das cervejas presentes no
festival), as fichas para degustação tem um singelo preço que
varia em torno de 1,70 Euros.
No verso de cada folha do livro contém
a descrição detalhada que explica os ingredientes, sabores e aromas
das cervejas presentes no festival. Uma ótima oportunidade para quem
quer provar algo novo, mas sobretudo manter em arquivo as cervejas
degustadas durante o festival.
Como o próprio nome já diz (Kerst =
Natal em flamingo), no festival encontram-se somente cervejas de
Natal e invernais, são servidas nas torneiras ou em garrafas. Nos
anos que morei na Europa eu tive o prazer de participar de algumas
edições. As preciosidades que podemos encontrar nesse festival são
realmente inúmeras, desde clássicas cervejas de inverno encorpadas
como toda a linha Rochefort (inclusive uma edição especial com
rotulo de natal), Leffe, Chouffe, Sint Bernardus, entre outras. Para
degustar essas cervejas mais “normais” você gasta somente uma
ficha.
E obviamente encontramos pérolas
cervejeiras dedicadas ao natal, como por exemplo a condimentada
Fantome De Noel que consegue redirecionar as nossas papilas com os
seus nuances picantes e perfumes de uva passa, casca de laranja e
coentro. Mas atenção, não confiem muito nas várias
avaliações presentes na internet da Fantome De Noel e da Fantome
Hiver, pois ambas tendem a variar muito de sabor e aromas de ano em
ano. Então o meu conselho é degustar livres de qualquer preconceito
digital.
Quando você se sentir mais a vontade
após algumas horas no festival e tiver coragem para, digamos “passar
de nível”, você pode começar a degustar as “reservas”. Para
essas cervejas você precisa gastar 2 fichas para cada degustação,
mas acreditem em mim, muito bem gastas. É
nesse nível que encontramos raridades e obras primas como as
fabulosas Oerbier Special Reserva de várias safras, trata-se de uma
cerveja de 13% ABV produzida pela Brouwerij De Dolle, usa levedura
vinífera e passagem em barris de Bordeaux por 2 anos, uma obra de
arte que deve ser degustada lentamente apreciando cada fração de
gole, quase como um Elixir.
Outra jóia
rara que podemos encontrar nesse festival, sempre da Brouwerij De
Dolle, é a Stile Nacht Reserva de varias safras, uma cerveja potente
e acolhedora, maturada por 2 anos em barris de Cherry Essa longa
maturação em madeira traz ricos nuances de figo cristalizado,
baunilha, coco e frutas escuras em calda. E para os mais curiosos, se
conseguirem fazer uma vertical de safras (por menos que seja) tanto
da Stile Nacht Reserva quanto da Oerbier Reserva, vocês serão
transportados para nuances sensoriais ainda obscuros e desconhecidos
por muitos, sem dúvida
são cervejas que nos levam para um patamar além do esperado.
E para aqueles que querem ter uma
clássica experiência
de natal européia, no próprio festival existe um espaço dedicado
para vários tipos de Gluhkriek (vinho quente temperado com
especiarias como cravo, canela, ovos, entre outros...), nesse espaço
os visitantes poderão se esquentar nos dias frios de inverno
europeu. Tudo isso, com uma excelente gastronomia local à base de
cerveja. Como por exemplo, cubos de carne cozidos na cerveja, sopas,
toast, pães com salsichas de porco e queijos com sal de aipo.

Agora imaginem esse entusiasmo e
experiências sensoriais
enriquecidas por um ambiente acolhedor com aquele toque espartano.
Mesmo em clima de festa, não se encontra nenhuma dificuldade em se
locomover no interior do evento entre um stand e outro de cervejaria.
Um evento que realmente que todo o apaixonado por cerveja belga deve
visitar pelo menos uma vez na vida. 
Todas informações sobre o Kerstbier Festival podem ser encontradas aqui.
Por Doug Merlo
Doemens Biersommelier Diplom
Italian Beerteaster Diplom
BJCP Certified
Mixologist

quarta-feira, 29 de março de 2017

Os mais importantes e interessantes festivais cervejeiros da Bélgica! - Por Doug Merlo


Os verdadeiros apreciadores de cervejas já são familiarizados com a cultura cervejeira belga, mas a Bélgica é um país que sempre consegue nos impressionar e surpreender quando o assunto é cerveja. E algumas dessas surpresas são os seus magníficos e fascinantes festivais cervejeiros espalhados por todo o território e organizados durante o ano todo.  Não há melhor lugar e momento para começar a apreciar e degustar. Nesse post vou elencar os festivais cervejeiros mais importantes e interessantes da Bégica, eu mesmo ja participei na maioria deles e posso garantir que cada um tem seu próprio caráter e tradições distintas.

BRUGES BEER FESTIVAL

Típico e charmoso festival que acontece todo o mês de Fevereiro. Esse ano o festival de cerveja mais popular de cidade de Bruges completou 10 anos e celebrou um grande estilo ao receber 70 stands com cervejarias de toda a Bélgica. Nesta edição em especial, metade dos stands tiveram um lugar debaixo de uma enorme tenda criada na praça central, e a outra metade enfeitaram os salões do campanário imponente da matriz central de Bruges o "Belfry". Um festival que oferece uma visão geral das cervejas belgas e uma multidão internacional apreciando e falando sobre cervejas. 

Site: http://www.brugsbierfestival.be
Data: Esse ano aconteceu nos dias 4 e 5 de Fevereiro.
Local: Bruges



A NOITE DA GRANDE SEDE (NACHT VAN DE GROTE DORST)

O principal atrativo de A Noite da Grande Sede (além de seu nome convidativo) é o seu único foco: cervejas Gueuze e Lambic, são cervejas belgas que são feitas exclusivamente no Vale Senne e Pajottenland. Aqui, os protagonistas são as verdadeiras micro-cervejarias tradicionais que produzem Lambic em meio às colinas e terras agrícolas. Espertos de cerveja de todo o mundo aparecem para as edições do festival que acontece nos anos pares. Uma noite que promete ser particularmente cosmopolita, já que a organização Gueuze Society está pedindo a todos os visitantes que tragam a bandeira de seu país para uma foto geral. A partir das 19:00 será um por todos, e todos por Lambic. 

Site: http://www.geuzegenootschap.be/en/the-night-of-great-thirst
Ainda sem data prevista para 2018.
Local: na frente da Itterbeek Church, Dilbeek



ZYTHOS BEER FESTIVAL

Este é o maior festival em território belga, com mais de 500 cervejas diferentes e está cada vez mais se fixando na cena e no calendário da cerveja na Europa. Festival que acontece todos os anos no mês de abril na cidade de Leuven. Um dos poucos festivais que a grande maioria dos produtores belgas fazem questão de comparecer com os seus produtos. A possibilidade de degustar as várias cervejas presentes no festival e ter a oportunidade de conversar com os produtores é única. 

Site: http://www.zbf.be
Data: 22 a 23 de Abril de 2017
Local: Brabanthal, Leuven



LEUVEN INNOVATION BEER FESTIVAL

O Festival de Cerveja e Inovação de Leuven consegue combinar a história e a modernização do negócio da cerveja. Evento que acontece dentro do antigo salão tradicional da cerveja da cidade, onde Stella Artois, famosa cervejaria de Leuven viu pela primeira vez a luz do dia. O evento em pequena escala oferece até 75 opções de cervejas especializadas.

Site: http://www.leuveninnovationbeerfestival.com
Data: 4 e 5 de Junho de 2017
Local: De Hoom, Leuven



BOLLEKESFEEST

O Bollekesfeest, mostra como o amor dos cidadãos da cidade de Antuérpia para com a sua cerveja regional tem crescido, sa festa promove a culinária e cultura cervejeira por toda a cidade. A estrela da festa é o "Bolleke", famoso copo e marca registrada da cidade criado pela cervejaria De Koninck. Um ponto fixo nos menus dos cafés de Antuérpia, o Bolleke (uma tradução solta seria "Gordinho"), a principal cerveja do evento são as Belgian Pale Ale com um aroma ligeiramente maltado, condimentado e "hoppy". Durante o festival, os mercados que vendem todos os tipos produtos regionais se reunem e bandas locais atuam durante os quatro dias.

Site: http://www.visitantwerpen.be/nl/bollekesfeest2016
Data: 17 a 20 de Agosto 2017
Local: Centro histórico de Antuérpia incluindo Grote Markt, Handschoenmarkt, Groenplaats e Suikerrui



GENT BEER FESTIVAL

A cidade com a sua típica hospitalidade flamenga oriental abriga o Festival de Cerveja de Ghent com duração de um dia, que regularmente apresenta um convidado de honra. A edição de 2016 serviu cervejas especiais do Reino Unido além das cervejas nacionais e locais onde o tema foi "brettanomyces", típicas leveduras selvagens usadas na produção de cervejas belgas da região de Pajottenland, isso dá um significado adicional ao Festival fazendo com que os participantes "ousem provar" o tema. Todas as degustações acontecem em um ambiente descontraído em um dos jardins da cidade.

Site: http://gentsbierfestival.be
Data: 19 de Agosto de 2017
Local: Jardim do VIP-School, Ghent



NORTH SEA BEER FESTIVAL

Os verões nos litorais belga se tornam ainda mais refrescantes durante o último fim de semana de Agosto, quando o North Sea Beer Festival aterrissa no centro da cidade de Ostende. No campo verde do Leopold Park, a poucos metros da praia. Mais de150 rótulos de cervejas especializadas e vários alimentos incríveis ficam a nossa espera. Enriquecido por Gazebos e conjuntos de música ao vivo para noites especialmente aconchegantes.

Site: https://business.facebook.com/events/1817293945167694/
Data: 25 a 27 de Agosto de 2017
Local: Leopold Park, Ostend



BELGIAN BEER WEEKEND

Se você for um apaixonado por cervejas e se encontrar na Europa entre o fim de Agosto e o final de Setembro, é etapa obrigatória dar um pulo em Bruxelas e degustar do mais puro pedigree belga cervejeiro no fim de semana da cerveja belga. Organizado pela Federação Nacional dos cervejeiros belgas, tem como pano de fundo a magnífica Grand Place no centro de Bruxelas. São servidas cerca de 350 cervejas belgas, e mais 80.000 amantes de cerveja de todo o mundo passam pela praça durante o final de semana.

Site: http://www.belgianbrewers.be/en/events/belgian-beer-weekend-171/?lang=en
Data: 1 a 3 de Setembro de 2017
Local: Grand Place, Bruxelas



BEER, BREAD AND CHEESE FESTIVAL

Festival que acontece em uma encantadora, imponente, tradicional e pitoresca cidade chamada Durbuy na região das Ardenas com o apelido de "a menor cidade do mundo". Com grande variedades de cervejas regionais, pães e queijos.

Site: http://bdd.tourisme.durbuy.be/durbuy_agenda.php
Data: 9 e 10 de Setembro de 2017
Local: Place aux Foires, Durbuy



POPERINGE BEER AND HOP FESTIVAL

A pequena região de Poperinge - famosa por sua natureza acolhedora (muito apreciada pelos soldados aliados britânicos durante a Grande Guerra, achando o apelido de "pequena Paris") e por ser a única região produtora de lúpulo na Bélgica, como já comentado nesse artigo, é um ambiente natural para o  popular Beer and Hop Festival. Esse festival acontece somente a cada três anos, e 2017 é um dos sortudos. Se algum dos leitores do Loucos por Belgas estiver pela Bélgica, não perca a coroação da "Rainha do Lúpulo".

Site: http://www.hoppefeesten.be/en
Data: 15 a 17 de Setembro de 2017
Local: Poperinge's City Center, Hop Museum e Paardenamarkt


KERSTBIER FESTIVAL

Todos os anos na cidade de essen é organizado um dos festivais mais encantadores da Bélgica, o festival das cervejas de natal belgas. Durante dois dias os visitantes podem saborear cerca de 180 cervejas belgas e de Inverno.  A lista de cerveja é considerada como uma das melhores do mundo, com vários exemplares e perólas interessantes combinadas com outros clássicos. 
No festival de 2015 cerca de 2000 sedentos amantes de cervejas de Natal foram ao festival em Essen. E não só da Bélgica! A cada ano a audiência internacional vem crescendo, contando 25 países na última edição.

Site: http://kerstbierfestival.be/ENG/route-E19.htm
Data: em Dezembro de 2017 ainda a ser definido pela organização
Local: heuvelhal Kapelstraat 7, Essen



Com todos esses eventos durante o ano todo, tenho certeza que qualquer viagem para a Bélgica será de muito divertimento, cerveja e cultura. 

Por Doug Merlo
Biersommelier Doemens Diplom
Italian Beer Taster Diplom
BJCP Certified
Mixologist







domingo, 26 de fevereiro de 2017

2016 foi ano da cerveja belga - Por Doug Merlo

Desde o fim de 2016, beber cerveja belga é considerado uma “experiência cultural”, isso porque a UNESCO finalmente decidiu adiciona-la sua lista de patrimônio imaterial da humanidade, inserindo a cerveja belga entre as mais altas expressões culturais e tradicionais da humanidade. Além de ser um grande reconhecimento por um elemento fundamental da sociedade belga, o aspecto mais gratificante para nós apaixonados por cerveja é que no texto da UNESCO faz referimento a “cerveja artesanal”. Em outras palavras não se pode falar de cultura cervejeira belga sem considerar uma conexão ao conceito de cerveja artesanal.

A Bélgica entrou com a sua candidatura para o reconhecimento seguindo itens burocráticos bem precisos. Entre os documentos que compõe o dossier formado pela UNESCO, aparecem algumas citações que foram fundamentais para o reconhecimento ser efetivado.

Um resumo do texto da UNESCO:

Produzir e apreciar uma cerveja é parte fundamental das tradições de uma ampla variedade de comunidades da Bélgica. Tem uma função primaria no quotidiano do povo belga, bem como em ocasiões de festas e celebrações. Quase 1.500 rótulos são produzidos no país utilizando diversos métodos de fermentação. A partir dos anos '80 a cerveja artesanal começou a se tornar popular. […] Além disso, a cerveja é muito usada no âmbito gastronômico, como no caso da criação de queijos com cerveja na maturação. Assim como o vinho no resto do mundo, na Bélgica a cerveja é muito usada para harmonizar refeições para exaltar aromas, gostos e sensações. Diversas associações de produtores e consumidores trabalham em grande proximidade com as comunidades locais para promover um consumo consciente da bebida. Além de ser transmitida em casa e nos círculos sociais, os conhecimentos e habilidades são transmitidos por mestres-cervejeiros que lecionam aulas em cervejarias, cursos universitários especializados para profissionais, hospitalidade em programas de formação geral para os empresários e pequenas fábricas para cervejeiros amadores.

Uma grande parte da população belga se identifica com o elemento “cerveja” e participa de uma ou mais atividades relacionadas a esse elemento. Milhares de pessoas, organizadas ou não, homens e mulheres, profissionais ou amadores, lidam diretamente com a cerveja na Bélgica.

A cerveja é produzida em todo o território belga. Em todas as regiões existem cervejarias, clubes, museus (cerca de trinta no total), cursos de formação, eventos, festivais, restaurantes e bistrôs que contribuem com o vivaz e criativo panorama cervejeiro local. Vôrias práticas tem raizes geograficamente limitadas: como por exemplo o Lambic, um produto que se encontra somente em Bruxelas e em uma região vizinha chamada Pajotteland e somente durante o inverno; as antigas cervejas escuras e ácidas produzidas na região Flaminga ocidental; típicos queijos feitos com cerveja produzidos por abadias.

Na Bélgica existem quase 200 cervejarias que juntas produzem cerca de 1500 rótulos, muitas das quais são artesanais ou especiais, de mais de 50 estilos. Essa variedade deriva da criatividade dos cervejeiros, da necessidade de consumidores conscientes, um sólido sistema de compartilhamento e transmissão das informações e uma ampla gama de soluções tecnológicas e matérias-primas."

Nada que nós apaixonados por cerveja já não saibamos. Mas uma coisa talvez os leitores do Loucos por Belgas talvez não saibam, é que esse reconhecimento por parte da UNESCO para a cerveja belga, fez com que os alemães “torcessem o nariz”. Exatamente 3 anos atrás, os alemães foram os primeiros a tentar promulgar a cerveja deles como patrimônio da humanidade, seguindo a mesma estrada que a Bélgica seguiu, mas teve o pedido negado. Porém a estratégia adotada pela Alemanha na época foi diferente da Bélgica, pois eles apostaram tudo sobre o reconhecimento da Lei da Pureza alemã da cerveja (Reinheitsgebot) como documento das tradições culturais cervejeiras locais. Através das minhas pesquisas eu não consegui descobrir o motivo pelo qual a UNESCO negou o pedido, mas não é difícil imaginar: primeiramente a Reinheitsgebot era uma lei de “tutela alimentar” e não uma disciplina qualitativa; segundo, e mais importante, essa lei contribuiu para o desaparecimento de tantas especialidades locais que bruscamente não puderam mais ser consideradas cerveja. Resumindo, sem dúvida não é um elemento a favor da tradição de um povo.



Podemos afirmar que a cultura cervejeira da Bélgica não tem a necessidade de um reconhecimento da UNESCO para ser apreciada em todo o mundo pelo seu grande valor social, e nisso eu e muitos leitores estamos totalmente de acordo. Mas o aspecto mais importante, na minha opinião, é que nesse período de “puristas neo-proibicionistas”, neste momento histórico em que se criticam facilmente algumas bebidas alcoólicas ignorando a suas importâncias culturais, o elemento CERVEJA obtém o máximo reconhecimento possível para um produto componente da civilização humana. Mostrando para aqueles que em 2013, afirmavam que a Alemanha estava exagerando em propor que a sua cerveja virasse patrimônio imaterial da humanidade.

O ano de 2016 passou, e nos trouxe a alegria de ter uma paixão como a cerveja belga patrimônio da humanidade. Então a partir do inicio de 2017 a cada cerveja belga que formos beber estamos prestando uma homenagem a séculos de história, tradição e cultura de um país e um povo tão devoto a essa bebida.

Vejam o video que a própria UNESCO montou para finalizaçao do processo de reconhecimento de patrimônio da humanidade da cerveja belga.



Por:
Douglas Merlo
Biersommelier Doemens Diplom
Italian Beertaster Diplom
BJCP Certified
Mixologist



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

As 5 melhores cervejarias da Valônia para se visitar! - Por Doug Merlo


Bandeira da Região da Valônia
A Valônia, é uma das 3 regiões e uma das entidades federadas da Bélgica. Está situada na parte sul do país e agrega as zonas francófonas e germanófonas da Bélgica. A região foi administrativamente criada em 1980 simultaneamente com a Região de Flanders. A capital da Valônia é a cidade de Namur, a capital econômica é a cidade de Liége, a capital cultural é a cidade de Mons e a cidade de Charleroi é a capital social. Históricamente uma região sempre muito rural e feudal.


A Região da Valônia compreende as seguintes províncias:

  • Barbante Valão
  • Hainaut
  • Liége
  • Luxemburgo
  • Namur

Para aqueles que como eu são amantes de cerveja artesanal, a Valônia representa uma meta a ser visitada. Os motivos são óbvios: praticamente cada cidade tem uma ou mais cervejarias e todas elas com um nível de qualidade impressionante, geralmente especializadas em estilos como Saison, Witbier e Bière de Garde.

Então vocês podem imaginar o quanto é difícil elencar somente 5 cervejarias sem ser oprimido por remorsos e arrependimentos. Mas as minhas escolhas são uma porta de ingresso para os novatos do mundo da cerveja artesanal e para quem já tem um pouco mais de experiência mas nunca visitou a Valônia

Obviamente quando pensamos nessa região da Bélgica logo nos vem em mente abadias trapistas como Orval, Chimay e Rochefort e algumas cervejarias grandes como Chouffe e St. Feullien além de muitas outras, mas dessa vez me deixei levar pelo meu conhecimento pessoal e pelo meu coração escolhendo cervejarias que de qualquer maneira tenho mais afinidade e espelham plenamente essa região, seja como estilos de cervejas, cultura e “espírito”.

BRASSERIE DUPONT

Brasserie Dupont
Começo esse elenco com as melhores cervejarias da Valônia para visitar, com aquela que na minha opinião é “A” cervejaria nessa região, devido sobretudo pela extrema qualidade dos seus produtos e pela política de manter os preços mais “populares” possíveis, deixando as suas cervejas acessíveis a todos os bolsos. A Saison Dupont é sem dúvida a rainha da casa e representa um absoluto ponto de referimento para quem produz o estilo Saison. A gama de cervejas produzidas pela Dupont é muito ampla, incluindo também uma série de cervejas biológicas

Para quem for visitar, na frente da cervejaria existe o restaurante de propriedade Dupont onde pode-se almoçar deliciosos pratos típicos locais como por exemplo o “joelho de porco com mostarda”, além de degustar toda a linha de cervejas Dupont por preços realmente baixíssimos. Eu pessoalmente toda vez que vou para a Bélgica tento visitar a cervejaria.

Brasserie Dupont
Rue Basse 5, Tourpes 7904, Bélgica


BRASSERIE FANTÔME

Dany Prignon, proprietário da Brasserie Fantôme 
Clássico exemplo de cervejaria ARTESANAL belga por antonomásia, porque? Um elenco praticamente infinito de bons motivos incluindo: cervejas com sabores singulares sem muita padronização mas sempre distintamente “Fantôme”. Indico a todos passarem inteiras tardes “petiscando” os queijos e embutidos que se encontram no restaurante em anexo a cervejaria todos eles perfeitamente harmonizados com as preciosas cervejas com levedura Saison Fantôme, uma visita muito aconchegante entre fábrica e restaurante, que posso definir quase que “de família”. A extravagante criatividade do cervejeiro e proprietário Dany Prignon somada as colinas verdes que circundam a cervejaria faz com que a visita seja apaixonante, e como toda grande paixão é difícil explicar com palavras.

Brasserie Fantôme
B-6997 Soy


BRASSERIE À VAPEUR

Brasserie a Vapeur
Pode parecer estranho mas o nome dessa cervejaria significa exatamente o que ela é, ou seja uma cervejaria que funciona inteiramente “a vapor”. Realmente parece uma loucura pensar que em pleno ano de 2016 uma cervejaria ainda hoje usa um método de produção do inicio do século '900 usada no auge da revolução industrial. Em 1984 Jean-Louis e a sua esposa compraram a velha Brasserie Biset no centro de uma pequena cidade chamada Pipaix coroando o sonho do casal de ter a sua própria cervejaria. Depois de toda essa história obviamente encontramos as suas cervejas, especializados sobretudo em Saison, dentro da sua inteira gama de cervejas consegue-se encontrar a inteira história cultura cervejeira da Valônia, não vou nem gastar palavras em qual cerveja indicar porque TODAS são fenomenais.

La Brasserie à Vapeur:
1, rue du Maréchal à 7904 Pipaix (Leuze) - Bélgica

DUBUISSON

Brasserie Dubuisson
A história da Brasserie Dubuisson começa em 1769. Para acabar com a concorrência desleal de isenção de impostos das cervejarias “feudais” a imperatriz Maria Teresa de Habsburgo decide destruir todas através de decreto..

Joseph Leroy, parente por parte de mãe da família Dubuisson, era um cervejeiro em terras feudais e então destinado (segundo o decreto da Imperatriz) em fechar a sua atividade. Tentando burlar o decreto, transferiu toda a cervejaria para terras de propriedade privada da família onde na tinham nenhum vinculo feudal.

A cervejaria foi forjada sobre um espírito de independência, sustentado e defendido até hoje pela família Dubuisson.

Em 1933 Alfred Dubuisson elaborou uma cerveja muito especial, com alta gradação alcóolica, chamou a sua preciosa criação de Bush Beer, tradução em inglês de Cerveja de Arbusto. Desse modo foi involuntariamente um dos pioneiros no que logo se tornou a longa tradição das cervejas belgas especiais. Outro rótulo famoso da Dubuisson é a Cuvée des Trolls.

Com o tempo a Bush Beer com a sua incontestável originalidade, se desenvolveu para se tornar a ponta do diamante da cervejaria Dubuisson.

Hugues e Vincent Dubuisson representam hoje a oitava geração da família, com uma fé incondicional pela cerveja, continuando a elaborar cervejas com caráter particular em um contexto onde a tecnologia é colocada a disposição da tradição cervejeira belga. Atualmente faz parte da Belgian Family Brewers e é a cervejaria mais antiga ainda em atividade da Valônia

Brasserie Dubuisson
Chaussée de Mons 28
7904 PIPAIX (LEUZE-EN-HAINAUT) 

BRASSERIE ARTISANALE DE RULLES

No coração do Vale da Semois, entre Neufchâteau e Arlon a cervejaria Rulles espera os visitantes com cervejas de caráter forte e intenso. A Rulles Brune foi premiada com o Galo de Cristal na feira de Libramont, um prêmio para produtos belgas de qualidade e que respeitam o território e a valorização do mesmo.

Aqui nos encontramos em frente de uma pequena realidade cervejeira artesanal belga que está ampliando os próprios objetivos de produção, graças sobretudo ao sucesso comercial e a qualidade dos seus produtos.

Sao produzidas somente cervejas de alta fermentação, não filtradas, não pasteurizadas e refermentadas na garrafa ou em barril. A escolha do local da cervejaria deve-se pela excepcional qualidade da água, vinda diretamente de uma reserva natural da floresta de Anlier com um afluente natural do Semois. 

Quem visita essa cervejaria consegue desvendar alguns segredos de produção belga, o mestre-cervejeiro acompanha as visitas pessoalmente e explica todo o seu trabalho e a sua paixão pelas cervejas, sempre contando com uma dose de bom humor. Poder observar os tanques de fermentação aberta não tem preço!

Para quem estiver visitando a Bélgica em Junho, a cervejaria sempre organiza uma festa de aniversario no dia 1° com portas abertas para os apreciadores de cervejas. A visitação da cervejaria acontece durante o ano todo sob reserva com um mínimo de 8 pessoas, excluso a última semana de Agosto e Dezembro.

Brasserie Artisanale Les Rulles
Rue Maurice Grévisse 36
6724 Rulles (HABAY) - Bélgica

Por Doug Merlo
Doemens Biersommelier Diplom
Italian Beertaster Diplom
BJCP Certified
Mixologist

sábado, 15 de outubro de 2016

A Bélgica e seus lúpulos! - Por Doug Merlo

A Bélgica e o lúpulo, uma bela história mas muito controversa. Quem conhece um pouco da história da cerveja na Bélgica sem dúvida já ouviu a palavra “Gruyt”. Era uma mistura feita de ervas e condimentos que cada cervejeiro da idade média colocava na sua cerveja, fazendo com que a cerveja ganhasse gostos e aromas específicos e inconfundíveis além de prolongar a “vida degustativa”. Todas as cervejarias daquela época usavam o Gruyt, cada um na sua própria maneira, porque até então o lúpulo não era usado. Primeiro porque até o XI século não se conheciam profundamente as características organolépticas (que mais tarde foram reveladas perfeitas para a fabricação de cerveja); segundo, porque era proibido usar o lúpulo visto que os cervejeiros pagavam taxas pelo utilizo do Gruyt (lembrando que os monastérios eram isentos dessas taxas). A história entre a Bélgica e o lúpulo começa então justamente pela sua falta na cerveja mas que a partir do XVI século vira indispensável. E a partir de 1500 foi extinto a obrigação do uso do Gruyt em território belga, e cada cervejeiro começou a fazer cerveja como mais achava interessante.

E vocês pensam que na Bélgica não existia lúpulo cultivado naquela época? Existia e muito, ele era cultivado desde o século VII na cidade de Aalst, uma região das Fiandras Ocidentais Belgas. O cervejeiros flamingos começaram a utilizar o lúpulo sistematicamente, sendo ensinados pelos colegas cervejeiros alemães, que desde muito antes já utilizavam lúpulo nas próprias cervejas.

O progressivo aumento do utilizo do lúpulo fez com que a sua produção também aumentasse, e quando falamos de Bélgica esse aumento aconteceu sempre na cidade de Aalst-Poperinge, que no auge do seu período produtivo (1880) existiam 4185 hectares de plantação de lúpulo, hoje restam somente 180 que compreende uma produção anual de 365 toneladas de lúpulo de Northern Brewer, Challenger e Hallertau). Naquela época no período de colheita muitos trabalhadores rurais provenientes de outras regiões da Bélgica era assumidos para o empenhativo trabalho, que era feito manualmente até o final dos anos 50. Esses trabalhadores eram chamados de plukkers, que nas horas de intervalo dormiam em pallets forrados com palha dividindo o lugar com inteiras famílias de ciganos que se reuniam para o trabalho periódico, o pagamento era medíocre, poucos centavos por kilo de lúpulo colhido, os melhores colhedores conseguiam colher até 30-40kg por dia. Muito do lúpulo produzido era destinado para o mercado estrangeiro, tanto que muitas cervejarias alemãs, holandesas e inglesas compravam boa parte da produção de lúpulos belgas.

Mas voltando para o mercado belga, como utilizar todo o lúpulo que sobrava? Os cervejeiros não utilizavam para amargor, mas sim como estabilizante e conservante na cerveja fazendo com que a cerveja continuasse com uma forte estrutura maltada . Essa característica “doce” da cerveja ainda hoje prevalece na cultura cervejeira belga demonstrada em numerosos estilos. No amplo contexto da produção de cerveja na Bélgica não faltam ótimos exemplos de cervejas claramente lupuladas e amargas, que estão em forte crescimento tanto produtivo quanto de consumo. Esse cenário “lupulado” belga dividi-se em 2 capítulos: o primeiro é muito ligado a tradição, historicamente constituído por numerosas produções de excelência como Tripel, Belgian Ales e Saison, nas quais o uso equilibrado e elegante de lúpulos tradicionais (Saaz, Hallertau, Styrian) representam a perfeição clássica das produções belgas como por exemplo:

  • Westmalle Tripel
  • Chimay Tripel
  • St. Bernardus Tripel
  • De Dolle Dulle Teve
  • Dupont Moinette Blonde
  • Duvel
  • Westvleteren 8°
  • Witkap
  • De la Senne Taras Boulba e Zinnebier
  • Van Ecke Hommel Bier

Cada cerveja citada acima representa um exemplo clássico de lupulagem tradicional belga. O segundo e mais novo capítulo desse amor belga pelo lúpulo começou poucos anos atrás, identificado como um neologismo cervejeiro belga, as Belgian IPA. Nem todos reconhecem essa fragmentação do estilo IPA, Beeradvocate e BJCP reconhecem enquanto Ratebeer e BA, não. Mesmo com toda essa indefinição as Belgian IPA estão aumentando cada vez mais no território belga.

Mas o que são as Belgian IPA? Antes de tudo vocês precisam saber que ainda é um estilo em constante evolução, famosas sobretudo na Bélgica, mas também nos EUA e Itália. Inspirada nas IPAs americanas, são caracterizadas por usarem diferentes tipos de maltes e leveduras exclusivamente belgas mas com um utilizo parcial de lúpulos não europeus, preferencialmente americanos, que conferem um perfil aromático e gustativo frutado cítrico e resinoso.

Isso tudo começou com a Duvel Tripel Hop (Saaz, Styrian Goldings e Amarillo na primeira versão) e a La Chouffe Houblon (Tomahawk, Saaz e Amarillo), duas cervejas produzidas na Bélgica mas claramente pensadas para serem vendidas no mercado norte-americano, esses dois rótulos foram os primeiríssimos exemplos desse tipo de cerveja na Bélgica. Duas cervejas que abriram uma estrada, a Houblon que se transformou em uma cerveja de linha não somente para os EUA mas para toda a Europa e América (inclusive no Basil), e a Tripel Hop que é feita todos os anos sempre mudando o “terceiro lúpulo”. Apos o sucesso desses dois rótulos, outras cervejarias começaram a se aventurar nesse tipo de cerveja, como por exemplo:

  • Leyerth Urthell Hop It
  • Het Anker Gouden Carolus Hopsinjor
  • 't Smisje Belgian Double IPA
  • Alvinne Gaspar Ale e Extra Restyled
  • Contreras Valeir Extra (Sterling e Amarillo)
  • Troubadour Magma (Saaz e Simcoe)
  • Het Alternatief Truth
  • Struise Ignis e Et Flamma (Galena, Simcoe, Cascade, Chinook, Amarillo)

Temos também algumas produções não artesanais belgas, mas com resultados muito interessantes:

  • Lefebvre Hopus
  • Van Steenberge Over the Edge
  • Strubbe Brigand IPA

Tradição e inovação em uma nação que desde sempre esteve no cume da cena cervejeira mundial, com uma sabedoria produtiva disseminada durante os séculos. Nação que defende as próprias cervejas com marcas de qualidade reconhecidas em nível global.

Na Bélgica existem varias associações e marcas que tutelam alguns produtos, como por exemplo:

  • Belgian Family Brewers: selo que garante procedência familiar belga de pelo menos 50 anos no controle da cervejaria;
  • The International Trappist Association: Associação que regulamente e tutela cervejas trapistas e de Abadia
  • Cerveja de Abadia belga reconhecida: é um selo concedido pela União das Cervejarias Belgas, que identifica uma cerveja realmente feita em Abadias e supervisionadas pelos abades (não confundir com cervejarias trapistas)
  • Cerveja Belga da Valônia: um selo de reconhecimento e proteção para cervejas feita na região da Valônia na Bélgica, concedida pela Agência Valônia para a promoção de agricultura e qualidade (APAQ-W)
  • TSG: “Especialidade Tradicional Garantida”, selo que tutela o Lambic.

E obviamente não poderia faltar algo que protegesse e regulamentasse o uso de lúpulos belgas. Em 2010 foi criado o Belgische Hop, é uma marca registrada por cooperativa de produtores de lúpulo na região de Poperinge, que reconhece e tutela os lúpulos plantados e processados nessa região. Se um dia os leitores do Loucos por Belgas degustarem uma cerveja belga e no rótulo aparecer a logo da Balgische Hop, isso quer dizer que nessa cerveja é utilizado pelo menos 50% de lúpulo plantado em Poperinge. As primeiras oito cervejarias que aderiram essa iniciativa foram:

  • Jessenhofke
  • Van Honsebrouck
  • Den Tseut
  • De Plukker
  • Sint Bernardus
  • Den Triest
  • Antwerpse Brouw Campagnie
  • Seizoenbrouwerij Vandewalle

Hoje existem 58 produtores que podem ter o privilégio de usar a logo do Belgische Hop em algumas de suas cervejas, algumas cervejarias até mesmo fora da Bélgica.

Os tipos de lúpulos plantados na Bélgica:

  • Cascade
  • Fuggle
  • Goldings
  • Hallertauer Mittelfrühe
  • Saaz
  • Saphir
  • WGV
  • Admiral
  • Hallertauer Magnum
  • Merkur
  • Nugget
  • Pilgrim
  • Target
  • Brewers Gold
  • Challenger
  • First Gold
  • Marynka
  • Northern Brewer
  • Pioneer

O atual protagonismo do lupulo na Bélgica, fez com que a região da cidade de Poperinge investisse no “turismo cervejeiro” e criou o Hopmuseum (museu do lúpulo). Em uma atmosfera rústica e pretérita, o museu fica na velha casa de pesagem da cidade, onde antigamente se era pesado, controlado e estocado todo o lupulo produzido na cidade. Hoje os visitadores podem ver uma vasta coleção de antigos e atuais equipamentos que eram usados para a colheita, utilizando informações visuais e de auditivas, com uma impressionante interatividade as pessoas podem experimentar a historia e o ciclo vital do lupulo na Bélgica. Lembrando que os participantes da EXPEDIÇÃO CERVEJEIRABELGICA 2017 promovida por mim e o site o Caneco, vão visitar o museu em Abril.

Por Doug Merlo
Biersommelier Doemens Diplom
Italian Beertaster Diplom
BJCP Certified
Mixologist